Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus - , enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos também com descuido e alguma pressa, de amor. Antes que eu pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer - eu já estava lá dentro.
E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal - não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos daquela "outra vida".
De repente cruzados ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
In. Pequenas Epifanias - Caio Fernando Abreu
Ah, quase não agüento mais postar (em todos os posts recentes) Caio Fernando Abreu. Adoro coisas dele, mas poxa, a falta de tempo ou a falta-de-organização-do-meu-tempo me impedem de procurar textos diferentes e que eu ainda não tenha salvo aqui nos Meus Documentos :P graças ao feriado consegui postar.
Bom mês de maio...
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